[Trabalhinho realizado para a aula de português... E, como eu acho que até ficou bem, decidi publicá-lo aqui.]
Considera-se um poeta feliz?
- Sinto-me influenciado pelo taoísmo mas não me afasto da realidade, procuro vê-la com alguma distância. Não direi que sou um poeta feliz, contudo tento encarar a tragédia natural da nossa vida com uma certa bonomia. Tive, até hoje, a sorte de não sofrer doenças graves mas passei, como todas as pessoas, por instantes difíceis. No momento em que se consegue chegar à conclusão de que tudo é natural, há uma visita que nos aparece à porta: a felicidade. É bem-vinda.
- Como relaciona a escrita e a vida?
Se um poeta for trágico, a poesia deve ser adequada à sua natureza, o contrário também. Tem de haver autenticidade no acto de criação, que não deixa de ser labiríntica.
Livro das Quedas é o seu último livro. Qual é a sua ideia de ‘queda’?
- É uma consciência, não só um conceito físico. Tem a ver com a sensação do fim. Depois vemos que o fim não existe porque nos levantamos. Levantamo-nos no corpo e continuaremos a levantar-nos.
Após uma queda, terá o homem forças para se erguer de novo?
- O homem nem sempre. Mas a coisa múltipla que compõe o homem nunca se cansará. O velho irá sendo sempre destruído pelo novo. E tanto o que de matéria corre no homem como também as obras que ele deixa. O que nem sempre se sabe é o que é velho e o que é novo. Todos os dias se revelam poetas velhos mas Ovídio e Pessoa continuam novos. Renascendo.
Como vê a morte?
- Criamos, enquanto seres humanos, um esquema falso configurado numa situação-limite, a da morte, mas morremos a cada instante. A tragédia não é um lugar onde se chega nem para onde se vai, mas o momento que passa. O tempo tem uma dimensão de irrecuperabilidade. Estamos entre a natureza e a cultura, entre o caos e a ordem. Heraclito di-lo de forma extraordinária, Unamuno também. A um mesmo tempo sentimo-nos a vencer e a ser vencidos, a amar e a ser amados, em luta com o outro.
Poderá transmitir-se uma emoção sem a sentir?
- Esse é o problema do homem: consegue transformar a emoção em não-emoção. São coisas distintas e Pessoa viu isso muito bem. É trivial mas sempre necessártio dizer-se que a poesia não se faz com sentimentos, esses todos os têm. O poeta é também um artesão.
Já alguma vez chorou sentidamente?
- Ah sim, sou dos que choram. E quando estou apaixonado mais ainda, como se chorar fosse também uma acção de graças. Quando estou apaixonado pergunto-me se mereço o que a vida me oferece. E penso então nesse mundo cheio de horrores, de tanta solidão e sofrimento. Como é que no meio de tudo isso uma pessoa pode chorar de alegria? São momentos (poéticos? místicos? eróticos?) em que o homem não se encontra subordinado à ordem, à regra, apenas, ou quase, ao caos.
Escolhemos quem amamos?
- O poeta libanês Kahil Gibran escreveu "Se o amor te acenar, segue-o." Felizmente somos contraditórios, não excluímos na nossa fuga à ordem. O poeta move-se entre o desejo e a forma. O estilo é a sua impressão digital. Valéry escreveu sobre a oscilação entre a música e o sentido, mas não chega, deve falar-se também da paixão, da dor do mundo
Seria capaz de viver sem estar apaixonado?
- Dificilmente. Mas a paixão é também um modo de ser, e são tantas, as paixões. E não é coisa que se procure. Lembro-me de um haiku que escrevi há uns meses, no Líbano, é assim:
Não busques a paixão.
Ela, que não sabes onde está,
te encontrará.
Os outros seres também amam?
- Levanto-me todos os dias às cinco da manhã, abro a janela, olho para as árvores e penso que têm uma grande capacidade de amar, e até reparo que elas me olham com ironia, como se me dissessem: julgas-te calmo mas estás nervoso, andas de um lado para o outro, calmas estamos nós, aqui. Faço um silêncio e respondo-lhes: O poeta é uma árvore nómada.
Que mensagem(ns) pretende transmitir com a sua escrita?
- Dizer que a mudança é natural; que somos um ser para a morte mas que cada momento é uma passagem cheia de pequenas iluminações nas quais existe o primordial. A maioria [das pessoas] preocupa-se com o fim da viagem e não com o momento que passa.
Bem, já estamos mesmo no fim, deseja dizer algo aos nossos leitores?
- Posso acabar com o incript do fragmento 180?
Claro que sim!
- Quando a natureza do homem se dilui na morte
ele não mantém, ou “isso” não mantém, a sabedoria
do homem mas o saber mais vasto
de quem deixou de ser homem e regressa
à mágica dispersão dos seus componentes.
Em cada um deles a obra permanece, jamais
a alma do homem…
1 comentário:
que engraçado... casimiro... de brito. foram voces que escolheram, certo? :)
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