"Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou um pouco fora do controle e às vezes difícil de lidar, mas se você não sabe lidar com o meu pior, então com certeza, você não merece o meu melhor!"
Marilyn Monroe

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O amor e a sua correspondência

A banalização do telemóvel criou a banalização do objecto omnipresente. Numa posição de omnipresença, um objecto de paixão passou a ter a "obrigação" da resposta imediata a qualquer estímulo, sob pena de provocar o sofrimento do outro.
A angústia da perda passou a estar associada a trivialidades - pode acontecer, vertiginosa, quando se esgotou uma bateria; ocorre quando o amor se passeia displicente em lugares sem rede; e pode disparar a níveis clínicos quando o objecto amoroso, usando um direito inalterável de autodeterminação, decide desligar o telemóvel.
No amor, o telemóvel fez disparar o stress, a ansiedade, as angústias da rejeição e outras malaises de la civilisation. Um telemóvel desligado é uma providência cautelar para uma ruptura. Um presumível sintoma de infelicidade. Um fechar com a porta na cara. Um não, uma nega, uma tampa,
O telemóvel é caro, mas o amor tende a minimizar o impacto económico das medidas a que, no auge da paixão, recorre. E depois há as SMS, esse deslumbrante e mais económico instrumento de sedução, mas - também ele - uma grilheta dos amantes. Os segundos de resposta, os minutos, as horas, tudo é contabilizado para avaliar o impacto de um amor.
Institucionalizados os novos rituais do enamoramento, não importa se o objecto costuma estar sequestrado na Biblioteca Nacional, se vive em audiências contínuas com díspares personalidades, ou se, por qualquer razão que o coração se esforça por desconhecer, não vive como maldito computadorzinho na mão, em permanente disposição de disparar uma resposta irredutível.
O mail tem um tempo mais distendido, se excluirmos as pesoas cuja profissão as obriga a estar permanentemente em frente ao computador. Estas são ainda fustigadas com o monstro do Messenger, que, de borla, obriga ao diálogo contínuo.
Mas a minha amiga Vanessa, que num estado de paixão patético tem passado o último mês a escrever mails ridículo, SMS ridículas e a contar os segundos da resposta, teve um destes dias um inesperado e surpreendente ataque de felicidade amoroso: recebeu uma carta. Um postal dos correios. Um envelope com selo e tudo. Quando abriu a caixa e viu que não eram só contas, ia desfalecendo. Uma carta. Uma carta? Sim, só um grande amor.
Ana Sá lopes, "Diário da Vanessa", in Diário de Notícias, 12-05-2006 (adaptado)
[ Texto estudado hoje na aula de Português. Foi uma das aulas mais divertidas de sempre. A stôra fez questão de nos contar o caso de uma amiga (de 57 anos) que fica assim sempre que se apaixona! Foi só rir.
O máximo! :D ]

3 comentários:

Rosie disse...

nao sei. faz o que achares que e melhor para ti. se achares que ainda tens alguma hipoteses, aproveita, senao, passa para outra que ha muitos por ai! :D

Anónimo disse...

Bom texo :)

Conheces o baleal? :) Aquilo e espetacular ;)

Ana Paixão disse...

Fiz um teste de Português com este texto. Diz tudo :)